Fim do carro popular, avanço das chinesas e IA na decisão de compra: o que o mercado automotivo reserva para o motorista brasileiro
O carro popular está sumindo das concessionárias brasileiras. Marcas chinesas devem chegar a 30% do mercado até 2030. E mais da metade dos brasileiros já usa inteligência artificial para escolher o próximo veículo. Essas não são projeções otimistas de um relatório qualquer, mas conclusões apresentadas por especialistas em dois dos maiores eventos do setor automotivo realizados recentemente no país.
Salve, motorista! O Future Mobility, em São Paulo, e o Energy Summit, no Rio de Janeiro, reuniram fabricantes, fornecedores, especialistas em tecnologia e consultores para discutir o que vem por aí. O resultado é um retrato bem diferente do mercado que a maioria dos motoristas conhece hoje, e que vai impactar tanto quem planeja comprar um carro quanto quem já tem um na garagem.
O carro popular está desaparecendo, e a causa não é simples
Durante o Future Mobility, o consultor Murilo Briganti, da Bright Consulting, chamou atenção para algo que muita gente já sente no bolso sem entender o motivo: os modelos básicos e mais baratos estão sumindo das lojas. A explicação tem duas frentes. De um lado, novas exigências regulatórias de segurança e eficiência energética obrigam as montadoras a adicionar mais itens ao carro, o que eleva o custo de desenvolvimento e produção. De outro, a pressão das marcas chinesas forçou uma competição por preço que beneficia quem busca mais equipamentos pelo mesmo dinheiro.
A previsão de Briganti é direta: até 2030, veículos de origem chinesa, sejam importados ou produzidos localmente no Brasil, podem representar 30% dos emplacamentos. Hoje, nomes como GWM, BYD, Chery, Geely e JMEV já estão nas ruas e nas concessionárias. O que muda nesse cenário não é só o preço na etiqueta, mas a forma como o motorista pesquisa, negocia e documenta a compra.
Flex, híbrido ou elétrico? A resposta é: todos ao mesmo tempo
Quem esperava uma resposta definitiva sobre qual tecnologia vai dominar vai ter que esperar mais. A conclusão dos especialistas é que motores flex, semi-híbridos, híbridos plenos, híbridos plug-in e elétricos puros vão conviver no mercado brasileiro por pelo menos mais alguns anos. Isso amplia as opções para o consumidor, mas exige mais atenção na hora de comparar custo de manutenção, autonomia e disponibilidade de infraestrutura de recarga.
No Energy Summit, o especialista israelense em eletroquímica Doron Aubarch apresentou as baterias de sódio como uma alternativa real às de lítio. O sódio não tem risco de escassez, oferece menor risco de incêndio e desempenha melhor em temperaturas extremas. O ponto fraco atual é a menor densidade energética, o que significa menos autonomia por carga. Mas o preço das baterias de sódio deve se igualar ao das de lítio ainda em 2027, abrindo caminho para elétricos mais acessíveis nos anos seguintes.
6 em cada 10 brasileiros já usam IA para comprar carro
Os dados do Google, apresentados no seminário Anfavea Visions 2026, mostram que 57% dos brasileiros usam ferramentas de inteligência artificial durante o processo de escolha do veículo. Seja para comparar modelos, entender custos de manutenção ou organizar as opções disponíveis no mercado, a IA passou a fazer parte da jornada de compra de forma bem concreta.
Outros 30% usam IA especificamente para comparar fabricantes e modelos. E 13% já transferem parte da decisão final para a própria ferramenta. O efeito colateral é que o processo de compra ficou mais longo: mais acesso a informação alimenta mais pesquisa antes do cheque ser assinado. Uma pesquisa separada, feita pelo Google com o Ipsos em 21 países e 21.000 entrevistados, mostrou que 54% dos brasileiros já usavam IA generativa em 2024, acima da média global de 48%. O Brasil está entre os mercados mais receptivos a essa mudança.
Mas o alerta existe: a Ford contratou recentemente 350 engenheiros seniores nos EUA para corrigir problemas causados pela IA interna da empresa, que geraram prejuízos bilionários à fabricante. A tecnologia é útil, mas ainda exige revisão humana nas decisões mais críticas.
GWM confirma segunda fábrica no Brasil: R$ 10 bilhões e 9.000 empregos no Espírito Santo
A fabricante chinesa GWM confirmou que vai construir uma segunda fábrica no Brasil, em Aracruz, no Espírito Santo, a 80 km de Vitória. A área total é de 1,7 milhão de m², parte dos R$ 10 bilhões que a marca comprometeu com o país ao longo de 10 anos, com término previsto para 2032. A previsão é de 9.000 empregos diretos e indiretos.
A GWM já produz no Brasil desde agosto de 2025, na antiga fábrica da Mercedes-Benz, de onde saem os SUVs H6 e H0 e a picape Poer. A nova unidade vai fabricar veículos a combustão com motor flex, híbridos e elétricos. O SUV elétrico Ora 5, lançado no mês passado, é o único modelo confirmado até agora. A localização em Aracruz é estratégica: a cidade abriga a primeira Zona de Processamento de Exportação de capital privado do país, o que dá à montadora condições competitivas de exportar para Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia e México.
O que um despachante vê nesse cenário que o comprador comum não percebe
Com mais marcas no mercado e mais tecnologias disponíveis, a documentação de transferência, o licenciamento e o IPVA seguem as mesmas regras para qualquer fabricante, seja ele brasileiro, europeu ou chinês. O que muda é o valor venal do veículo para o cálculo do imposto, que depende de tabelas estaduais atualizadas anualmente, e que nem sempre acompanham o ritmo de entrada de modelos novos.
Um ponto de atenção real, que quem trabalha com documentação vê com frequência: modelos recém-lançados, especialmente de marcas com histórico menor de emplacamentos no Brasil, podem apresentar inconsistências no cadastro do chassi no Detran nas primeiras semanas após o lançamento. Isso não é regra, mas acontece, e quando acontece segura o processo de transferência por tempo indeterminado. Se você comprou um modelo chinês novo ou está pensando em comprar, confirme com o despachante ou diretamente no Detran se o veículo já está devidamente registrado antes de assinar qualquer contrato de transferência.
Ei, motorista! Se você chegou até aqui, achamos que também vai precisar saber disso:
Perguntas frequentes sobre o mercado automotivo brasileiro
A tendência apontada por especialistas é de redução gradual. Novas exigências regulatórias de segurança e eficiência energética encarecem a produção, e os modelos mais básicos tendem a desaparecer ou subir de preço. As marcas chinesas estão ocupando parte desse espaço com veículos mais equipados a preços competitivos.
É uma tecnologia alternativa à bateria de lítio usada hoje nos carros elétricos. A bateria de sódio tem menor risco de incêndio e funciona melhor em temperaturas extremas, mas oferece menos autonomia por carga. O preço deve se igualar ao do lítio em 2027, o que pode abrir caminho para elétricos mais baratos.
Sim, e 57% dos brasileiros já fazem isso, segundo dados do Google. Ferramentas de IA ajudam a organizar informações e comparar modelos, mas a decisão final sobre financiamento, documentação e custo total de propriedade ainda se beneficia de uma consulta especializada.
Não. O processo de transferência, licenciamento e IPVA segue as mesmas regras para qualquer fabricante. O ponto de atenção é o registro inicial do veículo no sistema do Detran, especialmente em modelos recém-lançados, onde inconsistências no cadastro do chassi podem aparecer e travar o processo de transferência.
Sim. A GWM produz no Brasil desde agosto de 2025, na antiga fábrica da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo (SP). Os modelos fabricados localmente são os SUVs H6 e H0 e a picape Poer. Uma segunda fábrica foi confirmada em Aracruz (ES), com previsão de incluir o SUV elétrico Ora 5.
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